A mestra do coco mais antiga do Amaro Branco. Dona Glorinha!

Tirei da gaveta um filme que comprei sobre a fotografia mais famosa do mundo, ou melhor, sobre a fotografia mais reproduzida no mundo. Um filme que fala de dois personagens: o fotógrafo e o fotografado, no caso, Alberto Korda, o fotógrafo e Che Guevara, o fotografado, para contar uma única história de uma foto que se tornou o maior ícone mundial. Assistindo a esse filme fiquei pensando em Che Guevara e todos os acontecimentos que o povo sul-americano enfrentou durante o século XX. E então me dei conta que Che morreu no final da década 1960. Pensei em como sou jovem, não assisti aos principais acontecimentos do século XX.
Eu não assisti, mas meu avô viu e viveu muitas coisa, como a revolução de 1930, na qual se alistou com apenas 16 anos nas forças revolucionárias. Fico lembrando que adorava ouvir ele narrar as história de combatente, tinha uma que em particular era a minha predileta e sempre pedia para ele contar, aí ele me respondia: “Milho, foi o seguinte: eu me tornei um perito em consertar metralhadoras e sempre que alguma dava problema eu estava lá para dar manutenção. Então, fui chamado para ver uma metralhadora que estava posicionada no telhado de uma casa próxima da Igreja da Boa Vista, quando fui avistado pelo exército que disparou contra mim. Fuji em disparada pelos telhados das casa e por descuido cai dentro de uma venda. Como era de noite, não tinha ninguém. Estava machucado, pois os estilhaços dos azulejos atingidos pelas balas cortaram o meu peito e me feriram bastante, mas mesmo machucado estava com fome e decidi procurar alguma coisa para comer. Então, encontrei as duas coisa que mais adorava: goiabada em lata e queijo coalho. Comi tanto que adormeci, quando acordei, o exército do governo estava me esperando para me prender.”

Um homem sem dúvida se faz das suas escolhas. Assim como Che se fez homem, revolucionário, médico, fotógrafo e tantas outras coisas, seu Celso também construiu sua história fazendo escolhas com a força da moral e do caráter. Para mim, é tão incrível a vida de meu avô que fico pensando quando Che era criança, seu Celso já empunhava uma arma e lutava por um ideal. O mito criado, imortalizado por Alberto Korda em uma imagem que traduz o sentido da palavra representação, morreu porque as suas escolhas de luta o levaram para outros lugares. O meu querido avô depois que Che morreu viu o fim da guerra fria, a queda do murro de Berlim, Mandela se tornou presidente da África do Sul, o Brasil ganhou mais três copas e viu o século XX se acabar.
Das escolhas de Celso, a que mais me impressiona foi o amor que ele teve por dona Bilé, minha querida avó. Eles se casaram em 1934 e só se separam em 2011, porque Bilé se foi. Um dia, quando eu estava fotografando ele, perguntei o que era o amor. Após um silêncio tive a seguinte resposta: “Amor não é sexo, amor é a vontade de estar o tempo todo com uma mulher que você acha sua musa.” Os homens feitos de ferro, na minha imaginação, são pessoas que encaram suas escolhas com paixão e dignidade de quem não tem medo nem mesmo da morte. Celso amou Bile, que o amava também. Eles viveram a vida difícil de quem era pobre, sem estudo. Ela foi alfabetizada e foi na escola, mas ele aprendeu a ler e estudou sozinho. A vida dele sempre foi uma batalha que era travada todo dia com trabalho, amor e dedicação.





Uma coisa muito emblemática para mim era como seu Celso não tinha medo de morrer, ele sempre dizia que estava velho e que se morresse não tinha problema. A impressão que me dava é que ele já tinha cumprido seus objetivos. Che também não tinha medo de morrer, acredito que por isso ele encarou a vida tão no fronte. No fundo, homens como eles levaram o século XX nas costas, diminuindo os efeitos das mazelas no mundo.
Alberto Korda é um fotógrafo que tenho como referência de um trabalho consistente, um dos maiores fotógrafos do seu tempo. Ele mostrou ser um profissional dinâmico quando migrou do estúdio para fotografar a revolução cubana. Ele, para fotografar Che, precisou cortar cana durante uma semana, assumindo uma postura de compromisso com aquilo de desejava fazer. E assim a vida lhe guiou para fazer a imagem do século XX, aquela que traduziria todos os símbolos e significados de resistência, enfrentamento e de uma agência dos ideais de revolução da America Latina perante a comunidade mundial.



Eu também sou fotógrafo e como Korda tive que passar por um aprendizado para fotografar seu Celso. Posso dizer que passei por uma experiência única quando decidi carregar a minha máquina e junto com ela partilhar da vida dele. O contato com seu Celso e Bilé me ensinou que a velhice tem um tempo próprio, diferente do tempo daqueles que vivem nos centros urbanos. Nunca me esqueço o dia que chequei na casa deles às 10h da manhã e eles estavam dormindo, depois fui às 15h e eles estavam dormindo novamente. A vida ensina que para representar tempos, compartilhar, nos entregar é necessário, antes de tudo, aprender a observar para poder representar.
Parabéns seu Celso, Bilé, Korda e Che.

O sertanejo é, antes de tudo, um forte.

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Emiliano Dantas
Fotógrafo free lance de Recife
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